Apple //e: A saga do novo velho continua!

Pois é, meus amigos leitores e fãs de retrocomputação. Gosto de variar o assunto dos posts, mas devido aos acontecimentos destes últimos 5 dias considero válido apertar nesta tecla mais uma vez em seguida sem pular o tema.

É fato que todos nós sabemos que ao comprar um micro antigo (neste caso com quase 30 anos) podemos ser surpreendidos com certos “extras”, e são estas experiências que passei com meu querido Apple //e que irei narrar neste segundo post sobre ele.

Ao utilizar mais a fundo o hardware, comecei a perceber algumas coisas estranhas, principalmente na execução de jogos mais pesados que utilizam a alta resolução dupla, onde estes apresentavam anomalias na tela e chegavam a travar. Respire fundo e lá vamos nós para mais um capítulo desta saga…

 

“No donut for you”!

Eu estava ainda todo maravilhado pela oportunidade mágica em poder usufruir pela primeira vez de um Apple //e original, então comecei pacientemente a passar alguns jogos para os disquetes.

Todos estavam funcionando perfeitamente, entre eles clássicos como Ghostbusters, Battle Chess e Karateka. Quando cheguei especificamente ao título Thexder, notei que logo no início da fase haviam alguns artefatos estranhos na tela, como rastros e blocos. Não demorou muito e o jogo travou.

Pensei na hora que poderia se tratar de um problema de memória. Procurando na internet descobri que o Apple //e tem um teste básico de hardware em sua própria ROM, para acessá-lo basta pressionar a tecla “maça cheia” ao ligar o micro ou resetar, então a tela fica toda embaralhada e no final do teste deve aparecer uma mensagem com o diagnóstico.

Se no final aparecer a mensagem “SYSTEM OK” ou “KERNEL OK”, seu micro passou nos testes básicos. No meu caso infelizmente a mensagem final foi:  

* RAM: 1 0 0 0 0 0 0 1

O asterisco significa que a memória com problema é a da placa de expansão, e os dígitos “1” sinalizam a localização dos chips, sendo em meu caso o primeiro e último chip da placa de expansão. Removi a placa AIIE do slot auxiliar e executei o jogo para ver se o micro conseguia executá-lo com 64Kb, tudo rodou corretamente (com a resolução mais baixa).

Coloquei soquetes e troquei os dois CIs, então o jogo passou a rodar normalmente, o resultado no visual da placa é a foto no começo deste post. Fiquei aliviado em resolver o problema e passei o dia testando outros jogos, estava indo tudo muito bem quando de repente…

 

Meu Apple //e cantou “Ops, I did it again”

Ao executar o jogo Renegade direto do cartão CF pela CFFA, não dava sequer um minuto e o micro travava. Depois tentei rodar os clássicos Test Drive e Prince of Persia pelo drive de disquetes, e o problema foi o mesmo.

A primeira coisa que fiz foi testar as imagens de disquete em um emulador, pensando que poderia ser algum erro neste sentido. Não, eles eram executados perfeitamente no PC.

Depois até pensei no alinhamento do drive, mas se o jogo Renegade estava sendo executado pelo cartão CF, esta hipótese estava descartada.

Parei e pensei comigo mesmo “mas o que estes jogos tem em comum”? Os outros jogos e aplicativos rodavam tranquilamente horas a fio sem problemas, então pesquisando melhor descobri que eles tem em comum o uso de dupla alta resolução e requisição obrigatória de 128Kb de RAM.

Ei, mas se a placa de expansão passou nos testes, então o que estaria causando o travamento do micro ao usar alguns recursos extras por um certo tempo? Na hora a primeira coisa que passou na minha cabeça foi: “SÓ PODE SER A FONTE”.

 

Ser ou não ser, eis a questão.

Devido ao susto que tomei no estouro do capacitor de segurança logo no começo da brincadeira (veja o post anterior), imaginei imediatamente que algo a mais poderia estar apresentando problemas dentro da fonte.

Pesquisei a possibilidade em trocar a fonte original por uma ATX, mas doía no coração só em imaginar qualquer coisa que pudesse alterar o estado imaculado de perfeição que se encontrava a máquina. Seria possível tolerar uma manutenção, mas mutilação estaria fora de cogitação.

Perguntando para os pensadores e amigos do grupo Apple II Br, alguns apontaram para a ideia de trocar a fonte por uma do Apple II Platinum ou GS, ou tentar antes trocar os capacitores. Escolhi a segunda opção.

Toda esta parte da “aventura” aconteceu em uma noite de domingo (comércio fechado), e em minha aflição e ansiedade não hesitei, peguei uma fonte ATX jogada num canto e removi os capacitores semelhantes para colocar na fonte do Apple //e na esperança de obter algum resultado positivo:

Não resolveu, o problema persistia.

No dia seguinte de manhã já fui a caça dos componentes, o que incluía todos os capacitores eletrolíticos da fonte e até mesmo os da placa mãe, afinal, são os componentes que mais sofrem com a ação do tempo. Minha fonte é fabricada pela Astec, então seguindo seus componentes a lista dos capacitores eletrolíticos que observei foram:

  • 4 x 470μF – 250V
  • 4 x 1000μF – 10V
  • 3 x 220μF – 10V
  • 2 x 330μF – 16V
  • 1 x 680μF – 16V

Na placa mãe constatei a existência de 9 capacitores eletrolíticos de 10μF – 16V.

Ao chegar na loja, consegui todos os componentes com a especificação de 105 graus, o que foi bom, apenas 4 capacitores da placa mãe tive que pegar de 63V, o que não seria problema. Deixei de lado os capacitores eletrolíticos de 250V da fonte por não terem na loja, e mesmo sob encomenda o preço deles juntos ficaria quase o de uma fonte ATX nova. Sem dúvida ainda os trocarei, mas deixarei para o próximo mês.

Ao voltar para casa agora sim troquei todos os capacitores eletrolíticos da fonte (menos os quatro maiores da esquerda):

A diferença de tamanho dos capacitores antigos para os novos é gritante!

Testei a fonte e as voltagens não mudaram em relação a antes da troca dos capacitores. Liguei tudo com esperança mas o PROBLEMA AINDA PERSISTIA!

Fui então trocar os capacitores da placa mãe. Note que todos os capacitores eletrolíticos da placa mãe são “deitados”:

Não consegui estes modelos na minha cidade, então preferi deixá-los “em pé”:

Mesmo com a camada de proteção verde da placa mãe, preferi não deixar os terminais encostados nela, somente nos pontos específicos de solda, o que acabou comprometendo a aparência:

Montei tudo novamente e corri para testar os mesmos jogos e nada feito, O PROBLEMA CONTINUAVA.

 

E ele sai de trás da pedra: -“Mestre dos magos!?”

Fui tomado por um profundo desânimo em imaginar que teria que trocar a fonte e alterar a aparência “sagrada” de meu Apple //e, quando de repente me veio uma luz em consultar um “oráculo adormecido” em minha cidade, um Sr. que já consertou micros jurássicos e por sinal é o mesmo que forneceu as memórias para meu TK 2000, o ilustre Francisco, conhecido também por Chico e chamado por mim de Dr. Brown.

Ele me disse algumas palavras que me abençoaram com uma sabedoria divina, ao qual entre os dizeres me recordo:

– “Mauro, lembro-me bem que estes testes de RAM devem ser muito precisos e complexos para afirmar que uma memória está realmente em pleno funcionamento. Mesmo que o teste básico nativo deste micro tenha acusado que as memórias estão funcionais, talvez elas estejam demonstrando alterações lógicas após aquecerem, sendo que nem mesmo neste teste em ROM isso é perceptível. Eu no teu lugar colocaria soquetes em todas estas RAMs e trocaria todos os CIs por modelos idênticos”.

Não pensei duas vezes, já que as memórias da placa mãe estão boas, pois os jogos do Apple II 48/64Kb não apresentam problema algum, então fui em busca de soquetes de 16 pinos para soldar na placa AIIE. Infelizmente só achei soquetes de 18 pinos, mas isso não me impediu de fazer alguns “malabarismos” e trocar todos os CIs. Eis o resultado final:

Usei as únicas memórias compatíveis em série de mesmo modelo que tinha em mãos, as Mostek-25. Confesso que a primeira vista não gostei muito delas, e ainda por cima estavam com marcas de solda pois foram removidas provavelmente de um CP-500 (segundo disse o Chico).

Pois é, as aparências enganam, liguei o micro e fui testar os mesmos jogos e… SUCESSO ABSOLUTO!! UEBA!

 

Já que o micro está aberto… Que tal um som externo?

Depois de passado o momento de estase pela solução do problema, aproveitei para fazer uma pequena modificação para ligar o som do speaker do Apple //e no monitor de segurança que estou utilizando, que por sinal o som é grave e potente se levarmos em consideração seu tamanho.

Tentei efetuar uma ligação direta e depois é que descobri que fui estúpido, isso poderia ter queimado o monitor. No Apple II por padrão o sinal do speaker sai por um terminal e no outro sai 5 VOLTS, não sendo o terra como acontece no PC e outros micros. Não preciso nem dizer que ao ligar no monitor ele deu um belo estalo.

Para a solução usei um conector somente no polo de saída de som do speaker, em seguida liguei em série um capacitor eletrolítico de 1μF de 16V, com o terminal positivo voltado para a placa mãe e terminal negativo ligado na saída RCA. A outra saída de som soldei em um terra comum da placa mãe, ao qual foi ligado ao terra do RCA.

Talvez alguns estejam se perguntando “mas quem vai querer ouvir o som do speaker de um Apple II amplificado”, sem nenhuma placa de som?

Simples, ouçam as músicas de jogos como Renegade, GhostbustersForce 7, talvez vejam algum motivo para isso. Tudo bem, confesso que também gosto de ouvir os sons estridentes de Ms. Pacman, H.E.R.O. , Robotron e muitos outros. Ouvir estas músicas e efeitos sonoros em um sistema de som amplificado e mais grave passa uma impressão de que estamos jogando naqueles arcades antigos, vale a pena.

Quem gosta de retrocomputação pra valer, aprecia a limitação destas máquinas, e isso inclui o som. É muito legal ouvir em um amplificador músicas e efeitos sonoros que extraem “leite de pedra” vindo de um Apple //e.

 

Conclusão

Não é a primeira vez que adquiro um micro antigo e tenho que efetuar algumas manutenções, pra dizer a verdade acho isso até muito comum e esperado.

Ressalto aqui que de forma alguma aponto o problema como responsabilidade dos vendedores que me ofereceram cada um de meus micros, pois muitas vezes os defeitos surgem posteriormente ou somente na utilização de recursos mais avançados, sendo que quem vende nem sempre tem como testar todas as possibilidades possíveis para o uso do equipamento.

Fica aqui a lição a todos. Quem deseja entrar neste ramo de retrocomputação precisa estar cercado por bons colaboradores, conhecedores, pensadores e acima de tudo, AMIGOS.

6 comentários

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  1. Parabéns…

    …realmente muito instrutivo o review.

    Ainda bem que vc conseguiu ajustar sua máquina, que é belissima.

    []’s
    PopolonY2k

    1. Com este post eu quis mostrar que às vezes a gente tem que bater cabeça pra aprender um pouco. Sinceramente valeu cada momento, mesmo nas horas que eu tinha vontade de comer os dedos 😉

      Como a máquina está redondinha agora, nos próximos posts deverei pegar mais as questões envolvendo aplicativos e jogos.

  2. Pode-se comparar com carros, não espere que um carro de 30 anos esteja funcionando como um novo, inclusive se a pessoa que lhe vendeu não é colecionadora. Não é culpa do vendedor, é culpa da idade do equipamento. Inclusive acho muito interessante esse tipo de manutenção, aprendemos mais sobre o hardware, sobre a história em si, damos mais valor a máquina e a toda história pela qual passou, como você mesmo disse no post, dói no coração ter que mudar qualquer característica original dela(a gente cria um respeito pela coisa). Coleciono MSXs e já perdi horas e horas refazendo soldas inteiras, mas o resultado é incrível.

    Sempre admirei seu Blog, a qualidade é excelente, adoro seus posts sobre hardware e manutenção, sei que se um dia comprar um apple ii, já sei onde tirar minhas dúvidas.

    Grande Abraço. Juliano

    1. Obrigado pelo comentário!

      Este tipo de retorno é que me anima a continuar escrevendo, é muito gratificante saber que de certa forma este site pode ser útil para algumas pessoas.

      Abraços.

  3. Teu Apple está excelente!
    Meu primeiro micro foi um Coleco Adam trazido de Miami que durou 1 mês e depois virou um videogame Colecovision pois corrompeu as 3 fitas que vieram.
    Meu segundo micro foi um Apple ][ Plus da Milmar que durou 3 meses cheio de mau contatos.
    Meu terceiro micro foi um Craft ][ Plus. Esse durou bastante!
    E então troquei ele por um Spectrum //e da Scopus (evolução do Microengenho).
    Ainda terei novamente um Apple2. Ainda não decidi se um //e ou um ][ Plus, mas acho que vai terminar sendo um //e mesmo com as placas de praxe (64Kb/80 colunas, CP/M, disco e serial).
    Abraço!

    1. Realmente, este meu Apple //e é o xodó da coleção 😉

      Obrigado por comentar!

      Abraços!

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