TK 2000 – Sua história e origem (e minha despedida)

Para quem acompanha o site, deve ter visto como um “humilde e pacato TK 2000” foi capaz de me fazer virar criança por um momento, e apenas isso já fez valer sua compra.

Passada a euforia inicial e estudando um pouco mais a plataforma, meu primeiro impulso foi na tentativa quase que desesperada de converter jogos do Apple II para ele ou até mesmo alterar sua ROM para compatibilizá-lo com seu hardware de origem.

Mas calma aí, se o charme do TK 2000 para quem o possuiu como seu primeiro computador é exatamente ser o que é, então provavelmente parte do problema estava em minhas expectativas, e não no micro em si.

Agora vou introduzir todos os detalhes sobre a plataforma antes de prosseguir com a narração de minha experiência pessoal e expectativas.

 

TK 2000 – Sua história e origem, do começo ao fim

O saudoso TK 2000 foi produzido pela empresa brasileira Microdigital e lançado em 1984. Seu preço convidativo foi o principal destaque que impulsionou as vendas nos primeiros meses de existência.

Nesta época já haviam começado a aparecer no mundo vários clones dos microcomputadores Apple II (entre outros), e no Brasil devido a reserva de mercado a realidade não foi nem um pouco diferente.

Com as restrições impostas em nosso país as empresas começaram a se ver praticamente obrigadas a copiar (pegar “emprestado”, piratear, roub… ah, deixa pra lá) projetos de empresas estrangeiras para dar origem ao nosso mercado de informática, já que fazer algo do zero implicaria em custos proibitivos e dificuldade em manter a plataforma.

O problema é que nesta mesma época a Apple começou a rodar o mundo fazendo uma “caça às bruxas” em relação a estes clones e várias empresas lá fora se deram mal.

Provavelmente vendo esta “inquisição” e temendo algum tipo de problema, a Microdigital seguiu um caminho diferente no TK 2000, e ao invés de clonar completamente um Apple II e correr certos riscos, ela simplesmente fez o “clone do clone”. Ou talvez ela nem tenha pensado nos riscos, apenas optou pelo projeto do TK 2000 por ser mais econômico. Quem sabe a verdade?

Isso mesmo, o TK 2000 partiu de um outro microcomputador que já era um clone parcial do Apple II, chamado Microprofessor II:

Este curioso microcomputador foi produzido em Taiwan pela Multitech (hoje conhecida como Acer) e não era totalmente compatível com padrão do Apple II, cuja principal diferença estava no fato de que o único modo de vídeo provido via hardware era o de alta resolução. Os modos de texto e vídeo em baixa resolução eram emulados via software usando seu único e modesto CPU de 1 Mhz (WTF?).

A Multitech usou esta abordagem de emulação de vídeo pois o Microprofessor II utilizava caracteres chineses, então para baratear os custos e não ter que usar um hardware especializado para esta tarefa, que era caro na época, o modo em alta resolução era usado para apresentar o texto na tela, desenhando literalmente letra a letra, ponto a ponto, causando uma considerável queda na performance.

Havia também outras incompatibilidades marcantes em relação a um Apple II, como diferenças na alocação de memória, simplificação do circuito de teclado, slot de expansão incompatível com o Apple II e por aí vai.

E adivinhem? O TK 2000 herdou todas estas mesmas características!

Para tornar sua origem ainda mais curiosa, a aparência do TK 2000 foi clonada de um outro microcomputador, o Atari 1200XL:

E mesmo com todas estas suas diferenças na arquitetura, isso não impediu os brasileiros em portar vários programas do Apple II para rodar no TK 2000. Alguns aplicativos faziam parte de sua modesta biblioteca de softwares, mas a grande maioria dos programas portados eram jogos.

A fim de mantê-lo competitivo, a Microdigital chegou a lançar o TK 2000 II, que oferecia a opção em vir com 128Kb de RAM de fábrica:

Infelizmente eram pouquíssimos os softwares capazes de usufruir desta memória adicional, como por exemplo uma planilha de cálculos (segundo relatos na comunidade era a “Multicalc da Microsoft”).

A maioria dos softwares disponíveis para o TK 2000 estavam concentrados em fitas cassetes, existindo poucos títulos disponíveis em disquetes, sendo esta uma das maiores causas que o distanciou dos ambientes corporativos.

Em 1987, apenas três anos após seu lançamento, o TK 2000 praticamente sumiu das prateleiras, dando lugar a seu sucessor, o TK 3000. Este sim era quase totalmente compatível com o Apple II, possuindo algumas adaptações atrativas ao mercado brasileiro e seu design era mais robusto e expansível.

 

As limitações do TK 2000 e meu dilema

Apesar das incompatibilidades do TK 2000, e posso dizer que isso de certa forma estava me incomodando, fiz o possível para manter meu entusiasmo através da visão de outros apaixonados pela plataforma, caso do amigo Claudio Moises.

Dei uma “tunada” em meu TK 2000 o máximo que pude, coloquei membranas novas no teclado, troquei suas memórias, adaptei uma fonte de PC AT dentro dele, fiz um mod para saída de som, importei uma controladora DiskII original da Apple, comprei uma Tomato Board e emulador SDiskII… E mesmo assim minha cabeça martelava a ideia de que ele não era um Apple II e não rodaria algumas coisas que desejava.

Li em vários lugares que entusiastas há anos atrás alteraram a ROM do Microprofessor II para torná-lo mais compatível com o Apple II, mas não consegui encontrar qualquer indício da existência desta ROM para download a fim de tentar usá-la no TK 2000.

Depois comecei a estudar o funcionamento geral da plataforma, seja através de livros ou código fonte de emuladores. Tentei de forma frustrada converter alguns jogos do Apple II para o TK 2000, mas eu precisaria conhecer perfeitamente a arquitetura de ambas as máquinas para ter alguma chance.

Fiz o básico, mas não era suficiente para os jogos que testei apresentarem uma execução plena. Ou o vídeo apresentava problemas, ou o teclado não respondia e assim por diante. Alguns membros da comunidade tentaram ajudar mas toparam com problemas semelhantes.

Executando certos jogos do TK 2000 em conjunto com seus respectivos títulos de origem no Apple II, notei que alguns jogos apresentaram diferenças marcantes, causadas pelos limites da arquitetura do TK 2000 que só poderiam ser sanados com alguma alteração mais drástica.

Segundo minhas pesquisas e consideração particular, um dos maiores peritos na arquitetura do TK 2000 é Fabio Belavenuto, desenvolvedor dos emuladores TK 2000 e TK 3000e. Em algumas conversas nas listas e trocas de e-mails entre eu, ele e o amigo Claudio Moises, colhi informações importantes que me fizeram pensar sobre algumas coisas. Entre as informações que o Fabio nos passou, destacaram-se duas:

  • É possível fazer uma ROM para melhorar a compatibilidade do TK 2000 com o Apple II, mas esta ROM deverá ser escrita DO ZERO
  • Só seria possível o TK 2000 ter a velocidade de um Apple II e plena compatibilidade através de alterações no hardware. Apenas software não resolverá todos os problemas.

Quando percebi que para chegar em algum lugar seria necessário estudar muito mais, percebi também que valeria mais a pena eu usar meu tempo para estudar uma plataforma que tem uma base mais sólida, a fim de alcançar um índice maior de usuários com possibilidade de execução em um hardware real, cumprindo então meu objetivo. Decidi portanto estudar somente a arquitetura original de um Apple II.

Como não me considero um colecionador, e sim um retroprogramador (apesar de ainda não ter demonstrado isso no site), então estava na hora de tomar uma decisão difícil… Me desfiz de meu TK 2000 e investi em um Apple IIe original.

Para minha alegria e coincidência do destino, quem comprou meu TK 2000 é um membro muito querido do grupo AppleII_br, que tem ajudado muitos amigos a comprarem máquinas desta plataforma. Vendi o TK 2000 totalmente “tunado” e restaurado por um valor justo ao amigo Mario Almeida, que por sinal foi exatamente quem me vendeu o Apple IIe direto dos EUA. Não é absurda esta coincidência?

 

Conclusão e despedida

O TK 2000 fez o seu papel na história da informática no Brasil e sem dúvidas deixou saudades principalmente naqueles que foram introduzidos na computação através de seu hardware. Suas limitações e diferenças só começaram a ser motivos de sua saída do mercado quando os consumidores passaram a exigir uma base mais abrangente e consistente de softwares.

Em meu caso pessoal com o TK 2000, fiquei muito feliz em ver que ele deverá viajar para uma terra distante, mas lá ele receberá o valor que merece (em todos os sentidos), principalmente por ser um micro tão especial e com características que o tornam quase único. E o melhor, será bem cuidado por seu novo dono, que me confessou que o TK 2000 foi seu primeiro micro, então não há melhor proprietário do que este.

Sem lamentações, vida de quem não pode gastar fundos e mundos com o hobby é assim mesmo, vão-se os anéis, ficam-se os dedos…

Enfim, deixo agora o mundo do hardware do TK 2000 e vou direto para a fonte original. Em breve deverei postar artigos sobre a plataforma Apple II e quem sabe, começo a desenvolver alguns softwares que possam fazer com que minha escolha tenha valido a pena.

PS.: Nada disso quer dizer que ainda não goste do TK 2000. Sempre poderei postar sobre ele em experiências proporcionadas através de emulação, apesar de gostar mesmo de usar o hardware real.

12 comentários

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  1. Grade Mauro! Bacana o seu relato. Só troca a primeira foto do TK2000 por uma do TK2000 I e nao o II rs
    Tenho certeza que depois que estudar o APPLE voce ainda vai voltar pra outro TK2000 e vai reescrever essa ROM. Ja vou montar um TK2000 com varias mods e uma delas sera o chaveamento entra as duas ROMs. hehehheh

    1. Ok, acabei de colocar a primeira versão do TK 2000, depois quando falo da versão II passei a foto pra lá.

      É que não achei fotos decentes com boa definição do TK 2000 I, todas estão com resolução ruim, manchadas ou passam a impressão de velho. Gosto de colocar fotos da época, mostrando os micros antigos quando eram lançados.

      Achei uma “mais ou menos” (muito brilhante), ajustei um pouco pelo Gimp mas acho que está suficiente.

      E não tenho dúvidas, ainda volto pro TK 2000, mas sabe como é, agora preciso completar o objetivo em ter uma micro de cada plataforma, depois que isso for feito, aí começo a cair no pecado do colecionismo 😉

  2. Olá Mauro!

    Muito bom o seu relato, obrigado por compartilhar!

    Neo

  3. Mauro, muito legal.
    E bom saber que vc se considera um retroprogramador. 🙂
    Você tem planos para falar sobre isso no site? Tipo… um curso de Assembler para Zx Spectrum? Heheheheh. Sou louco pra aprender isso… 🙂
    Abs.

    1. Ainda não defini exatamente como serão as sessões relacionadas a programação no site, mas quero sempre abordar da forma mais “humanamente viável” para os não programadores.

      Já adianto que tentarei antes produzir algum jogo para Apple II como um desafio pessoal, pois de todos os micros que tenho ele é o menos preparado para jogos por não possuir processadores de som e vídeo dedicados, tudo é jogado nas costas do CPU de apenas 1 Mhz. Sei que para ter o máximo de performance neste caso o correto é utilizar assembler, mas é aí que mora a surpresa… Para ser didático e introduzir a coisa para os não programadores, irei evitar rotinas em assembler ao máximo. Fica a surpresa…

      Então, no decorrer da programação do jogo vou explicar os passos, acertos, erros e dificuldades no processo. Se tudo der certo e a receptividade for boa, então farei o mesmo para o MSX e ZX Spectrum.

  4. Excelente relato.

    Quem sabe um dia me aventuro tanto no TK2000 quanto no AppleII.

    []’s
    PopolonY2k

  5. Grande achado esse seu site. Tb tive um tk2000II na decada de 80. Na verdade ainda tenho ele aqui, mas esta com defeito. Tinha um cartucho de expansão e um drive de discket. Uma vez puxei o cartucho da expansão e ele nunca mais funcionou… deve ter quimado.. :((((. Mas ainda guardo aqui……

    1. Opa, tente arrumar teu cartucho de expansão. Se puder mandar fotos e mais detalhes, te dou uma ajuda na boa.

      Obrigado pelo comentário.

  6. Mas será que vai funcionar depois de 20 anos parado? rs
    Vou ver se consido tirar algumas fotos para mandar. Mas para que email mando?
    Abç.

    1. Mande para mauroxavier (arroba) casadosnerds.com.br

      Tem imensas chances de funcionar depois de 20 anos parado, e o que não rodar, provavelmente seria só trocar alguns chips de RAM… Baratinho.

  7. Adorei o site. Muito interessante essa reportagem sobre TK2000 Meu primeiro computador

  8. Adquiri meu tk 2000 ontem. Está sem fonte. Quero adaptar uma de AT nele, mas achei as informações contidas aqui muito vagas. Necessita de mais detalhes como as cores dos fios e onde eles vao. Tambem preciso saber como voces fazem para carregar programas nele, já que eu possuo apenas o console, não o gravador de fitas cassete. Vi que usam o notebook para isso ligando na entrada “ear” do tk.. mas nao entendi como isso deve funcionar. Caso queiram me ajudar jcmm198@hotmail.com . Agradeceria muito

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